Regenerar é preciso

Em 2020, a Organização das Nações Unidas declarou que a década de 2020-2030 seria a década da regeneração dos ecossistemas. Vinte porcento da superfície do planeta apresenta declínio na produtividade ligada à erosão, ao esgotamento e à poluição em todas as partes do mundo. Até 2050, a degradação e as mudanças climáticas poderão reduzir o rendimento das colheitas em 10% a nível mundial e até 50% em certas regiões. A ONU propõe que as pessoas coloquem a mão na massa, e se involvam em trabalhos de regeneração, em soluções baseadas em natureza. É a década da AÇÃO.

Nas Vilas, um grupo de moradores resolveu colocar a mão na terra, e tem trabalhado desde 2019 na regeneração em uma pequena parte da praça no bairro, a Praça Carlos Monteiro Brisola, entre as ruas Padre Cerda e Madre Maria Angelica, na Vila Jataí. Esse pedaço da praça, na verdade um terreno com acentuado declive, de pouco uso, feita em terreno possivelmente de sobras de entulho de obras. Pela sua localização, durante a época de chuvas de verão, grande quantidade de água escorre das partes mais altas do bairro, vindas da avenida Cerro Corá e da Rua Pereira Leite, provocando alagamentos nas ruas mais baixas. Um exemplo é o que ocorre entre o final da Rua Padre Cerdá e a Rua Madre Maria Angélica, em uma das faces da Praça Carlos Monteiro Brisolla. Como consequência, esse pequeno apêndice da praça, que tem a forma de um triangulo, estava bastante assoreado e cheio de erosões, com grande perda de terra a cada chuva, num círculo vicioso levando cada vez mais à erosão.

Uma das maneiras de resolver este problema foi criar estruturas que permitiram que a água da chuva penetrasse de maneira mais lenta no solo e que fosse absorvida através de jardins de chuva, biovaletas e muitas plantas. Esta solução ajuda a deixar o solo da cidade mais permeável e recarrega os lençóis freáticos, diminuindo a ocorrência de enchentes nas cidades. É o conceito de termos as “cidades esponja” que absorvam a água da chuva, e não totalmente impermeáveis pelo concreto.

Técnicas de permacultura

O grupo de trabalho Áreas Verdes do Coletivo de Moradores e Amigos das Vilas Beatriz, Ida e Jataí entrou em contato com o coletivo Permacultores Urbanos para que pudesse ajudar a regenerar esta área. Em maio de 2019, em um mutirão de um dia inteiro, fizemos dois jardins de chuva e vários terraços, que transformaram aquele pedaço cheio de erosão em, hoje, um lindo jardim, onde as cigarras cantam muito no verão e com um microclima muito agradável. Muitos moradores já nos disseram que a quantidade de terra que sai da praça num dia de chuva é muito menor.

Durante a pandemia, nos anos de 2020-2021, continuamos trabalhando em grupos menores, aos domingos, no outro lado da praça, fazendo pequenos jardins de chuva, para continuar no processo de captação de água, regeneração do solo e diminuição da erosão. Os jardins foram feitos na forma de biovaletas com podas de árvores descartadas inadequadamente pelos vizinhos, composto das composteiras comunitárias do bairro e mudas de meia sombra doadas pelos vizinhos. O custo material deste trabalho é zero, o trabalho humano totalmente voluntário. Na parte de baixo da praça estamos lentamente levantando pequenos jardins para que segurem a água que escorre durante as chuvas. E finalmente, fizemos um agradável caminho que corta a praça, a trilha das Cigarras!

Cabe lembrar que não houve qualquer envolvimento do serviço publico nestas ações, que foram totalmente organizadas por moradores do entorno.

Impacto positivo

Este trabalho tem sido também uma ótima atividade pessoal para alguns durante a pandemia. Estar ao livre, com distanciamento seguro de outros, mas trabalhando coletivamente, fazendo alguma atividade física e tomando sol, é muito restaurador durante este momento difícil que passamos.

Em todo este trabalho usamos técnicas e princípios permaculturais, como usar material local, capturar e armazenar energia, obter rendimento, aplicar autorregulação e aceitar retroação, usar e valorizar serviços e recursos renováveis, não produzir resíduos, valorizar as pessoas, integrar e não segregar.

Convidamos a todos os moradores do bairro a conhecer (e participar) deste trabalho e de outros do nosso coletivo. Aos gestores públicos, que incorporem estas soluções baseadas em natureza e de baixíssimo custo em suas obras e que outras pessoas se inspirem para fazer o mesmo nos seus entornos!

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